Estou a ler um livro excelente “ A Morte de Theo Van Gogh” do escritor holandês Ian Buruma. Quem quiser perceber um pouco da Holanda actual, bem como da Europa que vivemos, pelo menos aquela que se situa para lá dos Pirinéus, é algo imprescindível.
Para mim está a ser um grande prazer, apesar do tema não ser dos mais simpáticos.Especialmente porque no dia do assassínio do realizador holandês, eu estava lá, na Holanda.
Lembro-me que acordei cedo, em Delft, liguei a televisão, como fazia todos os dias, e vi que o Theo Van Gogh tinha sido brutalmente assassinado perto do Oosterpark, numa rua que só mais tarde vim a conhecer. Apanhei o combóio para ir para a capital holandesa para o meu curso de neerlandês. Lembro-me igualmente da consternação das pessoas na rua, e dos diálogos que o meu esforço para perceber aquela língua que tanto prazer me dá em ouvir. Recordo a vergonha de tal ter acontecido numa terra como a Holanda. Nas aulas recordo igualmente o meu professor de holandês, do qual não me lembro o nome, mas que sei ter uma livraria especializada chamada Evenaar (Equador), em pleno bairro Jordaan, quase gritar furioso: “ Dat kan niet gebeuren in Amsterdam, dit is de vrijheid land”, ou seja: Isto não pode acontecer em Amesterdão, esta é a terra da liberdade. E fiquei impressionado.
Naquele momento a Amesterdão naif desapareceu. Não houve uma guerra civil, como se pensava que na altura poderia acontecer, mas as coisas nunca mais voltaram a ser as mesmas. Testemunhei um período muito importante da história recente da Holanda.
De volta ao livro, aconselho até para nós portugueses percebermos como se lida com as frustrações nacionais. O autor faz uma comparação fantástica com a selecção holandesa (Oranje) e as suas vitórias e derrotas e a reacção dos holandeses e da sociedade holandesa – para aqueles que me conhecem, sabem que é para mim a sociedade mais avançada da Europa. E mesmo assim as coisas más acontecem. Imperdível.
Estivesses tu a viver mais perto e pedia-te emprestado...
assim vou-me consolar com o desejo de não me esquecer de o comprar quando aí fôr.
Não seja por isso. Mando-te um com todo o gosto.
Manda-me um mail com a tua morada.
Abraços
Não tomes Amsterdam como os Países Baixos inteiros...segundo já me disse quem por lá viveu, se tirares Amsterdam e em parte Rotterdam, são um país MUITO mais conservador que Portugal.
Sá:
ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahhahahahahahahahah
Não consigo parar de rir com a alarvidade que aqui escreveste. Não sei se tens conhecimento mas não vivi só em Amesterdão. Conheço bem a Holanda profunda. Sitios como Baarle Nassau e Baarle Hertog, Rosendaal, Zwolle, Breda, Tilborg, etc.
"Naquele momento a Amesterdão naif desapareceu. (...) as coisas nunca mais voltaram a ser as mesmas." É exactamente dessa forma que penso e sinto relativamente a esse dia e ao que aconteceu depois.
Nessa manha, como em todas as outras, preparava-me para atravessar o Oosterpark de bicicleta a caminho do trabalho. Mas às 9h00, 10 minutos depois de Theo van Vogh ter sido assassinado a policia estava a barrar a entrada do parque. Ao chegar à agência, depois de dar umas voltas (pois todo o perímetro à volta do parque estava interdito) é que soube o que se tinha passado e fiquei muito chocada.
De uma forma indirecta este acontecimento mudou a minha vida, desculpa lá a partilha deste momento, mas expressaste nas frases acima citadas exactamente a minha opinião.
Fiquei muito curiosa acerca do livro e de certeza que o vou ler.
Dentro da área da literatura e holandeses mas noutro prisma, tens visto na RTP2, "Nós Por Eles"? São documentários com escritores estrangeiros a residir em Portugal, entre eles, Guerrit Komrij e Heleen van Royen, muito interessante e bem produzido.
Bj e até
S
Então ri-te não da minha cara mas da cara de quem me disse...que por acaso está a viver em Londres agora.
O que o Sá disse não é totalmente errado... Mesmo para os restantes holandeses, Amesterdão é uma cidade diferente e menos conservadora. Um pouco como Nova Iorque nos Estados Unidos. E mal comparado, como Lisboa em relação ao resto do País. E é verdade que muitas regiões da Holanda são bastante conservadoras...
Mas vocês só podem estar a brincar comigo. Então, eu que vivi lá, e que conheço bem, mas mesmo muito bem a Holanda e os seus costumes, dizem-me que a Holanda do interior é mais conservadora que Portugal?
Se comparármos uma vilazeca holandesa com Lisboa, talvez, mas mesmo assim dúvido.
Em vilazecas holandesas, existem coffee shops, e realizam-se casamentos de gays (homens ou mulheres), entre outros sinais de abertura de mentalidades. Onde é que isso se passa em Portugal, por exemplo?
Isso não é tudo em matéria de não conservadorismo, mas já é muita coisa.
Agora se me disserem que existem racistas ou pessoas mais conservadoras, claro que existem. Existem em todo lado. E Portugal não é excepção. Aliás, nós na nossa mania de não sermos racistas, somos dos povos mais racistas da Europa, a par de Dinamarqueses, Holandeses, Suecos, Franceses e outros. Iguaizinhos. Nem melhores nem piores.
Mas em termos de conservadorismo, infelizmente - e como eu gostava de que fosse diferente -, levamos de 10 a 0 dos holandeses..., isto apesar de serem o país que provocou o apartheid.
Convenhamos que essa tua ideia de ligar "mentalidade menos conservadora" (sim, que tudo é relativo, há que o admitir) directamente a coffee shops e a casamentos de pessoas do mesmo sexo e praticamente a nada mais é no mínimo limitada.
Racismo ? Em Portugal ? LOL ! À parte meia dúzia de gente, em 5 minutos ou menos logo se desmascara o suposto racismo das pessoas.
Eu nestas férias conheci um gajo a dizer que odiava pretos e que até já tinha pensado em inscrever-se no PNR e tal, pouco depois o gajo fala de um preto e "esse gajo é fixe"...se fosse efectivamente racista não abria excepções.
Claro que eu acabei logo com a conversa da maneira como faço SEMPRE nessas situações: "epá tens razão, eu também não gosto de pretos...só gosto de PRETAS". Calam-se num instante.
Eu não conheço a holanda toda, mas conheço algumas coisas ao fim de 3 anos. apesar de achar que há muitas coisas positivas no caracter deles, acho que são bastante conservadores. E a palavra adequada para eles não é liberal, mas antes tolerante. São muito hipócritas, mas sabem bem o que querem, não perdendo tempo com orgulhos e coisas menores para atingirem os seu fins. Sendo um balanço que fazem constantemente, tentando sempre manter as aparencias e as boas relações, caso venham a ser necessárias. São uns negociantes... Isto não significa que aqui e ali não se encontrem pessoas diferentes, mas eu acho que estas caracteristicas encaixam em muita gente...