#Espresso Conspiracy


Simples e grandiosa

Ontem entrei em casa e ela não estava lá. Foi uma sensação muito estranha. Durante mais de 30 anos habituei-me àquela casa com a minha tia lá dentro. Conheceu quase todas as minhas namoradas – mais até que os meus pais – conviveu com todos os meus melhores amigos. E, apesar de ser uma pessoa muito religiosa, nunca se opôs e nunca interviu com as pessoas que eu levava para casa. Fosse para um jantar mais romântico e afins… ou um trabalho de turma que acabasse às três da manhã. Remetia-se ao seu espaço da casa dando-me o resto da casa toda e, muitas vezes, a sensação que morava sozinho.

Já a conheci a pensar que ia morrer e a dizer que estava doente. Mas no fundo no fundo era muito saudável e tinha uma cabeça de fazer inveja a pessoas com menos cinquenta anos. Veio da “terra” muito nova para trabalhar como criada interna na casa de uns senhores ali na Lapa. Foi lá que viveu até se mudar para a casa que a viu morrer, no Largo do Rato. Tive um filho que morreu muito novo. Só anos mais tarde descobri que a foto que estava pendura da sala, a de um menino de calções com uma farta cabeleira que mais parecia um chapéu, era a do tio que nunca conheci, o filho que ela perdeu como uma doença para a qual na altura não havia cura. Ninguém soube quem era o pai, e eu nem sequer sei o nome dele. Só pensava que não deve haver coisa mais terrível que enterrar um filho…

A tia Virgínia tomou conta da minha mãe e da minha tia, com muitos erros à mistura, mas com muito amor. E foi a mãe que elas perderam quando ainda eram muito novas. Foi muitas vezes uma pessoa difícil, mas ao mesmo tempo muito ternurenta. Não era uma pessoa indiferente – e isso era uma das coisas que mais gostava nela. Nos últimos anos rodeava-se das fotos dos sobrinhos, os verdadeiros e os emprestados. Quando era pequeno adorava ver as telenovelas em família, algumas ainda a preto e branco, e ela comentava tão depressa a casa muito bem arranjada das personagens, como o facto de achar mentira as lágrimas que escorriam nas faces brasileiras.Tinha a mania de dormir com umas sete almofadas e de ter os chinelos bem afastados da cama para não sonhar. Adorava estar à janela e a pendurar roupa para secar, mesmo sendo proíbido. E era fã do 13 de Maio, onde a televisão ficava por sua conta. Até estar mais debilitada, adorava ir votar, sempre nos “xuxas” como chamava os socialistas ainda do tempo do Mário Soares.

A Virgínia era muito católica, ao ponto de a cada domingo de missa matinal na RTP 1 tanto eu como a minha irmã – ainda crianças - e impacientes que os desenhos animados começassem, tinhamos que lhe dar um beijo, tal como faziam as pessoas no culto televisivo. No fundo achava piada àquele ritual. Aqueles beijos ternurentos que nos deixava a cara um pouco húmida, e me fazia limpar, mal virasse a cara, era tudo o que gostava de receber agora e para os próximos anos.

E, apesar do esperado, nunca se está à espera de beijar um corpo frio antes de ele ser depositado na terra. Nunca se está à espera de ver os nossos pais chorarem que nem umas crianças. Para mim, e embora sabendo da impossiblidade da coisa, a Virgínia era eterna, era aquela velhota que lá estava, que me amava loucamente, que me dizia para ser alguém na vida, e para eu fazer a barba…

Quem me conhece sabe que ligo muito pouco à Igreja e a padres, e que adorava mesmo era ter uma bela discussão filosófica com um para lhe explicar que Jesus Cristo foi o primeiro Bloquista de Esquerda da terra. Mas ontem na missa do velório, o padre fez referência à grandiosidade da vida simples da minha tia. Achei a coisa mais acertada que alguma vez disseram sobre ela. Uma pessoa simples, sem grandes posses, com o seu feitio difícil, benfiquista, socialista, extremamente católica e grandiosa. Era a matriarca da família. Vai ser difícil passar pela sala de jantar e não a ver por lá. E só espero que esteja feliz, esteja onde estiver…

4 Responses to “Simples e grandiosa”

  1. # Anonymous Anónimo

    Excelente e bela homenagem, FG. Compreendo perfeitamente cada palavra que aqui escreveste. Grande abraço!  

  2. # Blogger andrea

    quando se ama assim... jamais se perde alguém.  

  3. # Blogger Pedro Sá

    Muito provavelmente o teu melhor texto de sempre...  

  4. # Blogger BB

    há pessoas que nunca vão morrer em nós. beijo.  

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